Querida Roberta, como estou chocado com o ataque sórdido que você sofreu da Tribuna da Assembléia Legislativa do Estado do Tocantins, a Casa do Povo tocantinense. Se esse ataque tivesse sido proferido na mesa de uma bar - como o que sofreu recentemente um professor da Universidade Federal do Tocantins, meu colega da trabalho e de orientação sexual, assassinado covardemente simplesmente por ser homossexual - ele já seria inadmissível e criminoso, mas como veio da tribuna da Casa do Povo, ele é mais inadmissível e criminoso ainda. Foi um ataque contra toda a cidadania tocantinense, contra todos os trabalhadores, contra todas as mulheres, contra todos os homens, independentemente de orientação sexual.
Enfim, os impropérios dirigidos a você são daqueles tipos que atingem toda a humanidade, porque eles hierarquizam as pessoas em cidadãos de primeira classe - os heterossexuais - e os de segunda, os homossexuais. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao reconhecer recentemente, por unanimidade, a união estável entre pessoas do mesmo sexo, deixou claro que não é possível mais se tolerar a cidadania de segunda classe no nosso País. O Poder Legislativo, em todos os níveis, está em dívida com a sociedade brasileira em relação à votação de projetos que acabem de vez com a discriminação de pessoas por orientação sexual. E esta dívida aumenta mais ainda quando observamos ataques discriminatórios ao estilo nazista, como o que você sofreu.
Os homossexuais nascem de relações heterossexuais. E segundo a ciência, a homossexualidade não é doença. E de acordo com essa mesma ciência, pelo menos 10% dos filhos dos heterossexuais nascerão homossexuais. Assim, é possível o surgimento de um homossexual na descendência de grande parte dos heterossexuais. Portanto, que pai ou mãe, avô ou avó quer continuar a ver alguém de sua linhagem sendo linchado em praça, tribuna ou bar públicos?
Querida Roberta, conheço você desde 1989, quando entramos para o curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás. Você nasceu para o jornalismo. Você tem a garra, o texto, a perspicácia e a coragem necessários para exercer essa profissão tão árdua, tão perseguida e tão maravilhosa! Como você cresce a cada dia! E Hoje, eu, como professor de Comunicação Social e pesquisador na área, não tenho dúvida em afirmar que você revolucionou o jornalismo tocantinense. Você criou o jornalismo que reflete sobre os fatos e que não tem medo de opinar. Mesmo que o leitor não concorde com a sua opinião, ele a respeita. Assim, querida Roberta, o ataque contra você foi também um ataque contra o novo jornalismo tocantinense, o novo "que sempre vem". Um dia, quando o "novo" chegar à Assembléia Legislativa Tocantinense, tenho certeza que desculpas lhe serão pedidas da mesma tribuna que tanto ofendeu a você e ao povo tocantinense.
A Assembléia Legislativa não é um único deputado, mas uma instituição. E com instituição que é a "Casa do Povo", ela é sagrada. Por isso, as ofensas contra você foram tão fortes.
Querida Roberta, eu também não tenho namorada, nem namorado, mas tenho um companheiro com o qual tenho uma união estável, graças ao Supremo Tribunal Federal. E se há poderes institucionais que me discriminam por eu ser homossexual, há também poderes que reconhecem a minha cidadania, a minha dignidade e a minha humanidade. Percebe, Roberta, o "novo sempre vem"!
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