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Quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012, 08h22m
Estado

Querida, Roberta, o "novo sempre vem"!

Confira o artigo do professor Fábio d'Abadia que relata o quanto é importante o respeito ao cidadão. O professor fala ainda do novo jornalismo, inovador e que não tem medo de opinar. Fábio d'Abadia é jornalista com mestrado e doutorado em Letras e Linguística e professor da UFT.
 
Divulgação Fábio d'Abadia é jornalista com mestrado e doutorado em Letras e Linguística e  professor da UFT.
Fábio d'Abadia é jornalista com mestrado e doutorado em Letras e Linguística e professor da UFT.

Querida Roberta, como estou chocado com o ataque sórdido que você sofreu da Tribuna da Assembléia Legislativa do Estado do Tocantins, a Casa do Povo tocantinense. Se esse ataque tivesse sido proferido na mesa de uma bar - como o que sofreu recentemente um professor da Universidade Federal do Tocantins, meu colega da trabalho e de orientação sexual, assassinado covardemente simplesmente por ser homossexual - ele já seria inadmissível e criminoso, mas como veio da tribuna da Casa do Povo, ele é mais inadmissível e criminoso ainda. Foi um ataque contra toda a cidadania tocantinense, contra todos os trabalhadores, contra todas as mulheres, contra todos os homens, independentemente de orientação sexual.

Enfim, os impropérios dirigidos a você são daqueles tipos que atingem toda a humanidade, porque eles hierarquizam as pessoas em cidadãos de primeira classe - os heterossexuais - e os de segunda, os homossexuais. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao reconhecer recentemente, por unanimidade, a união estável entre pessoas do mesmo sexo, deixou claro que não é possível mais se tolerar a cidadania de segunda classe no nosso País. O Poder Legislativo, em todos os níveis, está em dívida com a sociedade brasileira em relação à votação de projetos que acabem de vez com a discriminação de pessoas por orientação sexual. E esta dívida aumenta mais ainda quando observamos ataques discriminatórios ao estilo nazista, como o que você sofreu.

Os homossexuais nascem de relações heterossexuais. E segundo a ciência, a homossexualidade não é doença. E de acordo com essa mesma ciência, pelo menos 10% dos filhos dos heterossexuais nascerão homossexuais. Assim, é possível o surgimento de um homossexual na descendência de grande parte dos heterossexuais. Portanto, que pai ou mãe, avô ou avó quer continuar a ver alguém de sua linhagem sendo linchado em praça, tribuna ou bar públicos?

Querida Roberta, conheço você desde 1989, quando entramos para o curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás. Você nasceu para o jornalismo. Você tem a garra, o texto, a perspicácia e a coragem necessários para exercer essa profissão tão árdua, tão perseguida e tão maravilhosa! Como você cresce a cada dia! E Hoje, eu, como professor de Comunicação Social e pesquisador na área, não tenho dúvida em afirmar que você revolucionou o jornalismo tocantinense. Você criou o jornalismo que reflete sobre os fatos e que não tem medo de opinar. Mesmo que o leitor não concorde com a sua opinião, ele a respeita. Assim, querida Roberta, o ataque contra você foi também um ataque contra o novo jornalismo tocantinense, o novo "que sempre vem". Um dia, quando o "novo" chegar à Assembléia Legislativa Tocantinense, tenho certeza que desculpas lhe serão pedidas da mesma tribuna que tanto ofendeu a você e ao povo tocantinense.

A Assembléia Legislativa não é um único deputado, mas uma instituição. E com instituição que é a "Casa do Povo", ela é sagrada. Por isso, as ofensas contra você foram tão fortes.

Querida Roberta, eu também não tenho namorada, nem namorado, mas tenho um companheiro com o qual tenho uma união estável, graças ao Supremo Tribunal Federal. E se há poderes institucionais que me discriminam por eu ser homossexual, há também poderes que reconhecem a minha cidadania, a minha dignidade e a minha humanidade. Percebe, Roberta, o "novo sempre vem"!

Fábio d'Abadia
Mais sobre: jornalismo, NOVO, preconceito

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13 Comentário(s)

  • JOSÉ CAMPOS | 23/02/2012 | 11:22
    Parabéns nobre prof. Fábio pelo belo texto, gostei muito da leitura que acabei de fazer. São Jornalistas como você e a Roberta Tum que o nosso País precisa, pessoas com o pensamento a frente do seu tempo, e claro, pessoas que agregam valores ao próximo. Também fiquei muito triste com os comentários do Deputado, mas fiquei mais triste ainda por partir de um representante,o qual dependeu do povo para estar ali,e lutar em prol do povo.
  • Maria Rosalina | 20/02/2012 | 22:01
    É PROFESSOR FABIO SOU FILHA, ESPOSA E SOU MÃE, MAIS VOU LHE DIZER UMA COISA FICO INDIGNADA QUANDO ALGUÉM USA A OPÇÃO SEXUAL DE UMA PESSOA PARA FALAR MAL OU QUERER SE ACHAR MELHOR DO QUE O HOMOSSEXUAL, ISSO REALMENTE É UMA COVARDIA, SER HOMOSSEXUAL NÃO É DEFEITO, ABSURDO É ALGUÉM SER ACUSADO RE ROUBAR O DINHEIRO PUBLICO ISSO SIM É HORRÍVEL. ESSAS PESSOAS SIM TERIAM QUE TOMAR VERGONHA NA CARA, E DEIXAR QUEM TRABALHAR E LUTA POR UM MUNDO MAIS JUSTO VIVER EM PAZ...
  • João Carlos | 17/02/2012 | 13:26
    É lamentável quando um representante político de uma sociedade que se proclama democrática insanamente parte para a agressão verbal para conosco jornalistas e todos os demais profissionais e cidadão. Coloco-me solidário a você.Quanto ao texto do profissional F.D'Abadia: ele procura ser solidário a você ou a proclamar, com muita apologia, sua opção afetivo-sexual? O novo, infelizmente, também não virá com ele.
  • Natália Lima | 17/02/2012 | 11:11
    Parabéns Roberta, pela coragem e por mais uma vez pautar os debates sociais, agora com tema que envolve a todos nós, cidadãos, heteros e homossexuais.. Não se trata aqui de uma questão isolada e sim da defesa da liberdade de expressão, liberdade por orientação sexual, religiosa, étinica e sobretudo de opinar.. E quanto a você professor Fábio, mais uma vez revela a sua "sensibilidade e humanidade"... são essas as suas principais marcas que fazem com que seja admirável!
  • Mayza Aiala | 17/02/2012 | 10:31
    Fato lamentavel!! Alem do dep. Stalin ofender a honra de uma pessoa de bem, ele o fez aproveitando de sua posicao e do local utilizado. Devo refrescar a memoria dele dizendo que; a tribuna eh para ser utilizada em debates de interesse do povo, e nao para desabafo pessoal! Como todo chucro por nao ter argumento plausivel, se apodera de baixarias para ofender. Parabens professor por restabelecer o bom senso!
  • lira | 16/02/2012 | 19:31
    como pode o povo escolher um politico como esse pra nos representar,dessa vez vc foi longe.
  • José Delves do Carmo | 16/02/2012 | 13:52
    Abominável sobre todos os aspectos o comportamento do deputado Stálin nesse episódio em que está USANDO a jornalista Roberta como bode espiatório. Por que não o JT, tido como o maioral do Estado, e outros que dão as mesmas notícias sobre o assunto, inclusive nacionalmente? Mudando: a primeira vez que discordo da ciência. Porcentagem de homossexuais de dez por cento nunca existiu, nem existirá. Predispostos não chegam a dois por cento. Restantes oito, inflenciáveis da mídia e pessoais. Desde 90.
  • Silvanio Mota | 16/02/2012 | 12:08
    Belo texto do professor Fábio. Um desabafo frente tanta sordidez por parte deste deputado, que pelo que parece, representa não o povo, mas a ele e sua família. Se a ministra Eliana Calmon disse que "há juízes bandidos escondidos sob a toga", digo que possa haver deputados escondidos no manto da imunidade para esconder seus possíveis crimes.
  • Marco Tullio Tavares | 16/02/2012 | 11:57
    BRAVO professor.
  • albania celi morais de brito lira | 16/02/2012 | 11:15
    e quanto à Roberta, de quem sou leitora e crítica, deixo as versos de quem foi sem o ser (albeto caeiro): Para ser grande, sê inteiro/nada teu exagera ou exclui/sê todo em cada coisa/põe quanto és no mínimo que fazes/assim, em cada lago, a lua toda brilha/porque alta vive. Sejamos inteiros e tudo mais basta!
  • albania celi morais de brito lira | 16/02/2012 | 11:06
    Como é estranha essa lógica de que se pode escarrar na orientação sexual, que é personalíssima, e se fazer vistas grossas ao enriquecimento duvidoso, às práticas políticas revestidas de imoralidade e travestidas de empenho com o povo... E o que dizer da fala daquele deputado? Não me empenho em dizer qualquer coisa, pois não se deve proferir uma palavra que seja diante de um discurso para o nada. Se ele pensou em agredir, foi tomado pela própria insignificância como ser humano. Abraços
  • Laura dos Anjos | 16/02/2012 | 10:49
    Parabéns Fábio d?Abadia pelo texto, gostei muito da leitura que acabei de fazer. São Jornalistas como você e a Roberta Tum que o nosso País precisa, pessoas com o pensamento a frente do seu tempo, e claro, pessoas que agregam valores ao próximo. Também fiquei muito triste com os comentários do Dep. Stálin Bucar, mas fiquei mais triste ainda por partir de um representante do povo.
  • Victor | 16/02/2012 | 09:21
    A maior ignorância do ser humano achar que é melhor ou superior ao outro, seja pela orientação sexual, pela cor da pele, raça ou religião. Alguns chegam até usar o nome de Deus para justificar suas atitudes homofóbicas. O ser humano precisa evoluir muito para de fato aprender a conviver bem em sociedade. Mas também acredito que o "novo um dia chega". Minha solidariedade a querida Roberta Tum.

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