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Sábado, 23 de abril de 2011, 09h17m

Quando os bregas mandavam seu recado

O jornalista Flávio Herculano apresenta mais um artigo sobre a música brasileira e suas sinuosidades. Desta vez o panorama traçado parte do considerado "cafona" e ao que a geração internet realmente absorveu do Lado B da música popular brasileira que tocava apenas nas sintonias AM das rádios. Confira!
 

Enquanto o Brasil ainda descobria a geração de Chico Buarque, Caetano e Gil, festejando-os nos programas de TV, nas rádios FM e nos festivais, existia um Lado B da música popular brasileira que disputava com eles em popularidade, mas não competia pelos mesmos espaços, onde não lhes cabia. Eram os “cafonas”, ouvidos nos radinhos de pilha sintonizados nas emissoras de AM, na cozinha e no quarto de empregada das nossas casas. Os primeiros ocupavam a sala de estar, enquanto os cafonas falavam aos desvalidos, muitas vezes cumprindo o papel de cronistas do sentimento (e do comportamento) popular.

Entre uma canção meramente de dor-de-cotovelo e outra, os cafonas, rotulados atualmente de bregas, falavam das mudanças de comportamento que efervesciam: drogas, divórcio, feminismo e homossexualidade, sem omitir-se também quanto a temas tabus. Lembra de Fernando Mendes falando de uma paixão platônica por uma cadeirante? Sim, era uma época em que os bregas tinham muito que dizer e o faziam de forma clara, sem verniz, sem rebuscamentos, nas mesmas cores fortes do cotidiano, como faz um Almodóvar no cinema.

A geração internet que conheceu Vanusa pelo episódio constrangedor do Hino Nacional não imagina que foi ela quem cantou mais ardorosamente os temas feministas no país na década de 70. Guardadas as proporções e o tom panfletário de suas composições, Vanusa foi a Simone de Beauvoir da nossa música aos transformar seus dramas amorosos em bandeira de luta. “A mão que te acaricia é a mesma que te esbofeteia / A boca que te beija é a mesma que te injuria / O braço que te ampara é o mesmo que te bate na cara / ... / O teu silêncio é cúmplice da violência / Acorda pra vida e pede socorro / Nada vale esse jogo”, disse Vanusa em “S.O.S Mulher”, um de seus vários temas feministas. “Hoje pode parecer um grande clichê, um exagero, mas na década de 70 isso era realmente uma novidade”, situa o jornalista e pesquisador Rodrigo Faour no livro “História Sexual da MPB”.

Quem vê hoje Agnaldo Timóteo como político reacionário não supõe seu momento criativo e libertário quando compôs, em tom autobiográfico, em 1975, “Galeria do Amor”, em referência à Galeria Alasca, antigo reduto gay carioca. “Na galeria do amor é assim / Muita gente a procura de gente / A galeria do amor é assim / Um lugar de emoções diferentes / Onde gente que é gente se entende / Onde pode se amar livremente”. E não foi só Timóteo. Wando, Nelson Ned, Paulo Adriano e Odair José (este em duas composições) também dedicaram canções ao tema homossexual, livre de preconceitos, segundo enumera o pesquisador Paulo César Araújo no livro “Eu Não Sou Cachorro Não”.

Aliás, o goiano Odair José, conhecido como “o terror das empregadas” dado a frequência com que falava do tema, foi um prodígio na abordagem de tabus. Falou sobre o uso de drogas em “Viagem” (quero colocar na sua mente uma luz/ acabar de uma vez com os tabus/ que um dia inventaram pra gente), comemorou o advento do divórcio em “Agora sou livre”, abordou a prostituição em “Eu vou tirar você desse lugar” e foi excomungado pela Igreja Católica por defender a ideia que José e Maria não eram casados quando Jesus foi concebido e, portanto, ele seria fruto do amor livre. (No disco ópera/rock “O filho de José e Maria”, uma pérola de 1979). Antes, Odair José já tinha questionado "Cristo, quem é você?". Além disso, justo por, na época, ser tabu falar sobre métodos anticonceptivos, ele compôs o sucesso “Uma vida só” (Pare de tomar a pílula) quando o regime ditatorial implantava a política de controle de natalidade no país.

Como a censura não se restringia aos temas políticos, mas também à preservação da moral conservadora, Odair José, dizem, foi mais perseguido pelo regime militar que Chico Buarque. "A cada 12 canções que eu fazia, sete eram censuradas”, contabilizou José em entrevista ao site Censura Musical.

E assim o gênero popular seguiu em frente, de quando em vez dando seu recado e mexendo nas nossas feridas morais, em meio a um turbilhão de músicas voltadas às dores de amores (aliás, é uma característica universal da música privilegiar os dramas amorosos. É assim até na ópera). Pena a geração atual do brega não ter seguido essa receita, se restringindo ao chororô dos fins de caso.

 

Flávio Herculano

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16 Comentário(s)

  • Antonio Milhomem Lacerda | 30/04/2011 | 21:46
    Caro Flavio, Volto sobre canções e, agora mais para repercutir o que foi colocado muito bem no seu Post. O modo de vida daquela juventude, no que diz respeito à musicalidade, já estava castrado, também pela revolução que, baniu das escolas as aulas de cultura musical. Era coisa de somenos valor cultural para os "militares. Daí veio a onda do pragmatismo brega que preenchia, de certa forma, o desejo pelo lirismo e a poesia, embora rasteira, representada naquelas canções. Valeu pelo preenchimento desse vazio e pelas gosações que geravam aos críticos da chamada "boa música". Era uma forma de protesto. No tocante ao lado filosófico, quando mencionas "Simone du Beauvoir", discordo um pouco, pois ela é referência na formulação de uma corrente socialista muito ativa (Tempos Modernos) juntamente com o seu eterno parceiro Jean Paul Sartre ( pai da filosofia do existencialismo). Mas isto é outra história. Valeu!
  • Adriano Gomes | 29/04/2011 | 13:17
    Brega sepre será brega, o voces são. kkkkkkk!!
  • Marcelo | 29/04/2011 | 10:51
    Brega é lixo !! Não há nada que se aproveite de bordões e chavões óbvios... culpa, certamente, da falta de uma educação de qualidade do povo Brasileiro...
  • Letícia Máximo | 28/04/2011 | 12:53
    Olá Flavio, pela primeira vez bebo com muito gosto suas inteligentes palavras, o prazer inicial espero sentir em outras leituras. Escrevo aqui para falar que como agora você critica a "nova geração de bregas" antigamente,a geração que você exalta,também foi criticada, tanto que foi chamada de "brega". Vai saber se futuramente não irão elogiar o que ouvimos hoje e falar mal do que estarão ouvindo? Acho bom que o ser humano mude de opinião, mas é bom também que se valorize o presente,para no futuro ver que coisas piores podem ser criadas. rsrs Abraço.
  • Gilvan Nolêto | 27/04/2011 | 13:15
    kkkkkkkkk Flávio, Parabéns! Vc mexeu na ferida! De novo. Não há mesmo mais criatividade há, sim, muito plágio ou coisa parecida.
  • Andréa | 25/04/2011 | 17:51
    Flavinho muito bom, parabéns!
  • ZACARIAS MARTINS | 25/04/2011 | 17:29
    Bons tempos aqueles... Eu era feliz e não sabia
  • lucas | 25/04/2011 | 17:15
    o que o jota falou, é pura verdade kkkk, o brega antigo não era tão brega assim,como a baixaria que temos hoje,hoje eu fico até constrangido com o apelo sexual das musicas, penssando nisto me assust, e fico penssando se quero ter filhos,rerere.
  • jota coutinho | 25/04/2011 | 14:32
    uma ressalva, o povo não sabe o que ouve. ouvi o que a mídia impõe. outra coisa, o autor está falando de uma época que o brega era infinitamente mais inteligente. Caimos tando em qualidade que o Amado Batista chega a ser "classico" no meio de tanta futilidade.
  • Marcos Vinicius | 25/04/2011 | 12:40
    Parabéns pelo texto, Flávio. Apesar de que, hoje em dia, as músicas destinadas ao "povão" infelizmente perderam em grande parte o seu romantismo e apelam para a baixaria. Mas de qualquer maneira, isso é o Brasil!
  • Luciana Cerqueira | 25/04/2011 | 11:23
    O brega antigo parece Bach comparado ao brega atual.
  • leo | 25/04/2011 | 10:52
    Otimo texto Flávio. Historia pura. Mas já que "o povo sabe do que gosta", como disse o Silvano, eu gostaria de acrescentar um pensamento: -Por que a cultura brega está quase sempre junta com uma tremenda falta-de-educação? Por que o sertanojo, brega ou axé "tem que ser ouvido muito alto sem que se importe com o vizinho"? -Eu adoraria ter um vizinho que me acordasse no sabado ouvindo Mozart muito alto. Eu nao sei como alguem pode achar lindo e defender musicas que expoem as mulheres e crianças de forma tao grosseira enquanto envaidecem os homens. Musicas que incentivem o consumo de alcool e o abuso do sexo. Eu nao sou religioso e nem moralista. Eu respeito o gosto alheio mas o que estamos ouvindo em todas as tvs e rádios desde a década de 90, na minha modesta opinião é um tremendo lixo
  • Luiz Gonzaga de Oliveira | 25/04/2011 | 10:05
    Otimo esta reportagem asunto BREGA. O que e brega? mal humor talves descriminação um bom Brasileiro tem que ser caipira e brega eu sou o social do momento obrigado parabens ao povo brasileiro
  • lucas | 25/04/2011 | 08:51
    que bom que seu texto mudou de rumo ein, achei que ia falar bem do chico, gal e caetano, e descer o porrete nos bregas, acho que todos são otímos depende do momento em que se está, rock pra ter mais adrenalina, mpb pra refletir, musica de dor de cotovelo pra quem está com a tal, já penssou o cara perdeu a mulher por sua própria culpa, viu que fez besteira, vai ouvir o que? musica bem brega de corno, claro que é o que o faz refletir, gil caetano etc, não tem musica pra isto meu caro. a e empregada? é ruim meu deixa de ser elitista, eram todos os empregados que aliás sempre foi maioria.
  • Silvanio Mota | 24/04/2011 | 07:57
    Excelente o texto! Abaixo a moral cultural imposta aos desvalidos! O povo sabe do que gosta.
  • Leane Araujo de Oliveira | 23/04/2011 | 22:50
    Muito, muito bom!!! Vou usar algumas "partes" para fazer meu trabalho sobre musica brasileira. Parabéns!!!

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