Página Inicial

Em Debate

quarta-feira, 24 de agosto de 2011, 16h18m
Comunicação

Princípios Editoriais: Façam o que digo não o que faço

O artigo "Princípios Editoriais: Façam o que digo não o que faço" traz questionamentos sobre publicações recentes das Organizações Globo. O autor, Gilvan Noleto, é jornalista, perito, especialista em Polícia Comunitária e é natural de Tocantinópolis. Confira!
 
Da web Livro de Conti: relações entre a Globo e o reinado Collor
Livro de Conti: relações entre a Globo e o reinado Collor

O discurso de isenção, correção e agilidade, recém-publicado sob o título de Princípios Editoriais das Organizações Globo tem repercutido no meio jornalístico e despertado uma postura mais vigilante na sociedade atenta. É fato. Em redes sociais como o Twitter e em programas que discutem a prática jornalística, ao exemplo do Observatório da Imprensa - TV Cultura, o postulado global tem sido tema de saudável discussão. No Tocantins, também ecoa, embora, no momento, capitaneada pela concorrência, que aponta para veículo da Organização Jaime Câmara (OJC), a observação de que ela não estaria comprometida com tais Princípios.

Para quem conviveu na OJC aprendendo a fazer jornalismo no Jornal do Tocantins melhor que na faculdade, não é confortável o comentário, que esse veículo estaria se permitindo comprometer a consolidação da credibilidade defendida por Tião Pinheiro (referência de caráter indiscutível), por uma relação nebulosa com o Governo do Estado, num contrato de prestação de serviços, sem licitação, como critica a concorrência. Por R$ 2,2 milhões, os Princípios Editoriais das Organizações Globo estariam sendo ignorados, alegam. Um princípio é maior que uma norma, lembra outro.

Análise dos erros

Disputas comerciais à parte, certamente, conglomerados empresariais têm suas trajetórias pontuadas por erros e acertos, embora se saiba que, na retina do espectador, os equívocos se fixem com mais facilidade. Motivadas pela necessidade de errar menos e se aproximar mais dos acertos, as Organizações Globo, apesar de seu notável poder, parece ter cedido à humildade, para analisar erros do passado antes de formalizar em 28 páginas, os Princípios Editoriais que passam a balizar como uma trilha, a conduta de profissionais e afiliadas que a compõem. Se ela própria caminhará por essa trilha é outra história.

Apartidário

Entre os itens que mais se destacam no postulado em evidência estão aqueles que afirmam a independência das Organizações Globo, em relação a governos, grupos econômicos e ênfase para que os veículos de comunicação do grupo sejam apartidários, devendo “se esforçar para assim ser percebidos”. Mas a memória histórica não pode ser deletada. Buscando-a, se observa que nem sempre foi assim. Quem não recordar, leia Notícias do Planalto, livro de Mário Sérigio Conti, que revela as artimanhas para impedir o avanço de Lula Lá, “o arcaico” e a preferência por Collor, “o moderno”. Nada muito diferente do que já se viu no Tocantins, com direito a nuances de Ibope a Duda Mendonça.

Laicismo

Outro aspecto com recomendações reiteradas de isenção, e que motiva um bom debate é a passionalidade religiosa. É nítido o posicionamento: “As Organizações Globo são laicas, e os seus veículos devem se esforçar para assim ser percebidos”. “Os jornalistas das Organizações Globo devem evitar situações que possam provocar dúvidas sobre o seu compromisso com a isenção”, reafirma.

São diversas as recomendações e reduzido o espaço para comentá-las. Mas os efeitos instantâneos que uma publicação causa, podendo arruinar carreiras, fazer vítimas inocentes, sem a menor possibilidade de uma completa reparação do dano, justificam a preocupação das Organizações Globo em estabelecer um padrão mais transparente. Se para muitos, a primeira impressão é a que fica, no jornalismo, às vezes, é a que mais causa estragos. E observe que a precipitação danosa não é privilégio apenas de jornalistas, veículos de comunicação. Às vezes, instituições como o Ministério Público, Polícia e o Judiciário erram tanto quanto empresas de comunicação. O sofrido Odir Rocha, que o diga.

Interesse público

É evidente que os veículos de comunicação independentes, bem como a academia de jornalismo, não têm a obrigação de seguir o modelo global. Cada veículo, cada academia, naturalmente busca uma identidade própria. Mas ninguém pode prescindir do mínimo de respeito à opinião pública, consciente de que o interesse público deve prevalecer em primeiro plano, se de fato houver preocupação com a qualidade jornalística, e não em ter a sociedade sob seu controle, para disso obter proveitos.

Com outras palavras, o jornalista Alberto Dines diz que, no discurso contido nos Princípios Editoriais, as Organizações Globo parecem tentar se adaptar conforme o interesse público. E o público é sábio, se interessa por decisões racionais, com ar de liberdade.

Imposição evolutiva

O contorno da paisagem jornalística que se desenha no horizonte, a partir de agora, não é beneplácito de uma empresa, mas uma imposição da sociedade que a Globo percebeu. A evolução social, com o surgimento das redes sociais que driblam a censura e se posicionam com mais liberdade para criticar, protestar, opinar, impõe mudanças. Salvo engano, é a filósofa Marilena Chauí que diz: “Na medida em que o homem evolui se cria novas técnicas e normas”.

Se para a Globo “a análise crítica de edições passadas é um imperativo” e ela de fato deseja respeitar a adversidade, ela acaba oportunizando à sociedade, o direito de ousar discordar, discutir, debater, opinar. Se uma sociedade “não produz uma única forma de ver a realidade, ela é plural e dividida por interesses antagônicos de diferentes grupos”, as idéias diferentes são um convite para um bom debate. Ganhariam com ele, jornalistas, dirigentes e proprietários de veículos de comunicação, professores, estudantes de jornalismo, enfim, a sociedade.

Mesmo com ares de abertura democrática e respeito à opinião pública, os Princípios Editoriais das Organizações Globo ainda provocam um questionamento: Haverá dissonância entre o discurso e a prática?

Cumprir. Eis um grande desafio.

Gilvan Noleto éPerito, Jornalista e Especialista em Polícia Comunitária

twitter.com@gilvannoleto

Gilvan Nolêto

Prezados internautas, SEJAM BEM VINDOS ao novo espaço para comentários

Nosso sistema mudou, mas algumas regras permanecem para que este espaço promova o debate com qualidade. Vejam quais são:

1 - O comentarista deve se cadastrar para comentar, validando seu email

2 - São duas as restrições que podem motivar bloqueir: uso de palavras de baixo calão e acusações ou menções a crimes pelos quais os mencionados não tenham sido condenados em última instância de recurso.

3 - Ao comentar artigos e notícias, atenha-se ao assunto. Os comentários devem ter no máximo 500 caracteres. Se for preciso, poste a continuação.

4 -  É vedado o anonimato na manifestação da opinião. É permitido usar pseudônimos.

5 - Todos os comentários são moderados. Se o seu comentário atende as normas de civilidade aguarde sua liberação. Não é necessário postar mais de uma vez.

Importante: Especialmente na área criminal, comentários contendo ameaças, incitação à violência, preconceito racial e de gênero, além de homofobia, passarão a integrar lista de observação que poderá ser cedida às autoridades policiais e judiciárias quando necessário.

11 Comentário(s)

  • João Batista Barbosa | 07/09/2011 | 09:22
    Quando criança, entrava nas conversas dos mais velhos e escutava, "cala boca menino!, não se meta na conversa dos mais velhos." Na atualidade, me ponho a pensar:é licito fazer o que o outro fala e ignorar suas atitudes? Valha-me "Cazuza, Ideologia! euquero uma para viver."
  • Adiel Carvalho e Oliveira | 29/08/2011 | 13:39
    Boa reflexão! Mas esteja certo que a globo, como um dos grandes males deste país, não vai cumprir o que está escrito! Essa organização tem espalhado o mal na sociedade brasileira e alguns programas sociais que promove é apenas 'mea culpa'! É o canal, jornal, editora... que menos consumo! Vamos esperar...
  • Glaudinéia Murad - Londres | 26/08/2011 | 16:51
    Já estava mais do que na hora da Globo dá uma resposta ao seu telespectador, após ter omitido veicular várias denúncias de corrupção envolvendo o poderoso chefão do futebol brasileiro.
  • Glaudinéia Murad - Londres | 26/08/2011 | 16:48
    Caros leitores,por que a Rede Globo resolveu publicar seus princípios editorias? Auto-desefa? Medo de ser confundida com o Império de Comunicação de Murdoch,do recente escandâlo dos grampos telefônicos na Inglaterra? Com certeza,uma satisfação antes de tocar seu até então intocável aliado, presidente da CBF,Ricardo Texieira,com quem durante décadas manteve uma relação de troca de privilégios num negócio bilionário que é o futebol. Continua...
  • Glaudinéia Murad - Londres | 26/08/2011 | 16:35
    Grande Gilvan como sempre profundo, crítico e antenado?Parabéns pelo rico vocabulário!!! De Londres - Glaudinéia Murad
  • Gilvan Nolêto | 26/08/2011 | 15:37
    José Alencar, ou qual seja seu nome, eu respeito sua opinião, mas você confundiu prepotência com reflexão. Se não concorda com os argumentos, estimulo sua coragem a escrever sua opinião sobre o tema. Debater respeitosamente, sem ataques pessoais, é saudável.
  • José Alencar | 26/08/2011 | 15:00
    Você gilvan se acha o anti-hipócrita, mas não é, pois não existe nada perfeito, e vc tá muito longe de ser um bom imperfeito. Teus textos tão ficando fracos e sem sentido. Ora, apenas 4 comentários de amigos seus e teu texto ficou no ar mal 3 dias e já tem um outro na frente, tá ruim hein! Prepotência tem seu preço!
  • Dinormanda Azevedo | 25/08/2011 | 11:56
    Excelente reflexão, Gilvan! As redes sociais promovem a tão falada 'democratização da informação', daí a importância de uma leitura crítica q o cidadão precisa fazer acerca do universo q o envolve. Àqueles q se omitem do debatem, apenas favorecem q os ditos 'poderesos' decidam como a informação deve ser recepcionada. N há pessoa/grupo, por mais 'forte' q aparente ser, q ignore a opinião das pessoas atentas sem q n sofra as consequências. Pessoas como vc promovem o Controle Social, de fato!!
  • Jefferson José Arbo Pavlak | 25/08/2011 | 11:26
    Parabéns pelo conteúdo. Quanto a obra em foco, a meu juízo, trata-se de um produto próprio do tecido organizacional social hipócrita que predomina no sistema capitalista do "da lá, dá cá" ou "coisa para inglês ver", ao efeito, me ocorre à lembrança: que a história não registra nenhum império que tenha se perpetuado e, por pertinente, salvo raríssimas exceções, comungo hoje, do legado pelo Barão de Itararé "A televisão é maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana". Saúde! Abr.
  • Sonia Pugas | 25/08/2011 | 06:58
    Excelente texto! Parabens pela lucidez nas palavras, na colocao dos argumentos e principalmente por alertar aos jornalistas quanto ao nosso papel de formadores de opiniao. Como voce mesmo disse, as redes sociais estao ai para driblar a censura, que o diga o episodio envolvendo Carlos Henrique "riquinho" no periodo elitoral...As redes sociais estao "engolindo" tudo, e nao duvido nada das emissoras se tornarem virtuais,rs. Restando a Globo um novo complendio de "principios editoriais", ah, ta...
  • Renato Campos da Silveira | 24/08/2011 | 18:04
    Algumas "estrelas" que achavam que ofuscavam no Tocantins tem brilho fugaz. Gosto da idéia do debate e os universitários estao precisando mesmo. Tem acontecido coisas nas TV tocantinense que precisa ser discutida a ética

Últimas notícias

  • Coperfrigu
  • Nacim
  • Band
  • Twitter
  • sudeste hoje
© Copyright 2012 - ROBERTATUM.COM.BR. (63) 3224-8117 - contato@robertatum.com.br
Desenvolvido por ConsulteWare e Rogério Carneiro