Apesar de mulher, negra e de origem pobre, a ex-presidenciável Marina Silva disse que nunca havia sofrido preconceito. Até chegar o atual período eleitoral. Pela primeira vez no foco de uma eleição nacional, Marina se viu perseguida ideologicamente por ser evangélica em um país de maioria católica e teve questionada sua capacidade de governar com independência aos dogmas exacerbados de sua religião. Marina foi peneirada no primeiro turno e, agora, o debate quanto às ideologias pessoais se volta à outra mulher na disputa, Dilma Rousseff, levando as discussões quanto ao destino do país ao nível de uma conversa entre comadres.
Marina soube enfrentar os holofotes e buscar o voto tanto da maioria quanto das minorias mantendo as opiniões que sempre defendeu, ao contrário de Dilma, que nunca antes disputou um cargo eletivo - portanto, nunca precisou se esquivar de polêmicas nem adquiriu o traquejo necessário quanto à exposição de temas espinhosos. O que ela disse antes de ser o centro das atenções de todo um povo ficou registrado, a exemplo de sua opinião favorável ao aborto, hoje renegada pela própria candidata e amplamente explorada pelos partidos políticos e pelos veículos de comunicação ligados à direita.
Encruzilhada entre defender seus pontos de vista e dizer o que os eleitores querem ouvir, Dilma escolheu a segunda opção. Com isso, perdeu-se em um discurso contraditório e, principalmente, vazio.
Em encontro recente com evangélicos, a candidata Dilma prometeu “não interferir em questões religiosas”, se abstendo de enviar para aprovação no Congresso ou sancionar projetos de lei que versem sobre a legalização do aborto e do casamento gay. Alegou que o Estado é laico e, portanto, eleita presidente, não vai interferir em questões religiosas. Em queda nas pesquisas, Dilma disse o que lhe era mais conveniente, ignorando o fato de que o aborto é, necessariamente, uma questão de saúde pública e, sendo assim, deve ser discutido pelo governo, da mesma forma que o casamento gay – que é uma questão de garantia dos direitos civis de uma parcela da população.
Dilma está tentando se adaptar a uma realidade que não lhe era exatamente familiar: o da superficialidade da comunicação e da incapacidade do eleitor em compreender mensagens complexas e conviver com pensamentos diversos aos seus. Nos debates da TV, não há tempo para exposição de ideias, assim como nos noticiários os argumentos são substituídos por frases de efeito e as opiniões cruas: é simplesmente sim ou não, contra ou a favor, isto ou aquilo. Não há espaço para justificativas e toda opinião que fuja ao senso comum é repelida pela maioria do eleitorado, se revertendo em rejeição ao candidato.
Por isso, Dilma simplifica o aborto a uma questão religiosa, na qual não cabe interferência do Estado. Com a mesma justificativa, diz que não vai intervir favoravelmente ao casamento gay, distorcendo os fatos de que este não se trata de um matrimônio religioso e sim de uma união civil, que para ser legalizada depende da ação do Estado, e não das igrejas.
E assim seguimos em uma reta final de campanha para presidente da República, com os candidatos se restringindo a expor posições pessoais, pior: com argumentos pobres, enquanto temas complexos, como a política econômica e as reformas tributária e política, seguem completamente à margem das discussões, para a satisfação do eleitor.
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