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Segunda-feira, 18 de outubro de 2010, 10h12m

Dilma, o aborto e o casamento gay

O jornalista Flávio Herculano em seu artigo aborda a "encruzilhada entre defender seus pontos de vista e dizer o que os eleitores querem ouvir" nessas eleições. Confira!
 

Apesar de mulher, negra e de origem pobre, a ex-presidenciável Marina Silva disse que nunca havia sofrido preconceito. Até chegar o atual período eleitoral. Pela primeira vez no foco de uma eleição nacional, Marina se viu perseguida ideologicamente por ser evangélica em um país de maioria católica e teve questionada sua capacidade de governar com independência aos dogmas exacerbados de sua religião. Marina foi peneirada no primeiro turno e, agora, o debate quanto às ideologias pessoais se volta à outra mulher na disputa, Dilma Rousseff, levando as discussões quanto ao destino do país ao nível de uma conversa entre comadres.

Marina soube enfrentar os holofotes e buscar o voto tanto da maioria quanto das minorias mantendo as opiniões que sempre defendeu, ao contrário de Dilma, que nunca antes disputou um cargo eletivo - portanto, nunca precisou se esquivar de polêmicas nem adquiriu o traquejo necessário quanto à exposição de temas espinhosos. O que ela disse antes de ser o centro das atenções de todo um povo ficou registrado, a exemplo de sua opinião favorável ao aborto, hoje renegada pela própria candidata e amplamente explorada pelos partidos políticos e pelos veículos de comunicação ligados à direita.

Encruzilhada entre defender seus pontos de vista e dizer o que os eleitores querem ouvir, Dilma escolheu a segunda opção. Com isso, perdeu-se em um discurso contraditório e, principalmente, vazio.

Em encontro recente com evangélicos, a candidata Dilma prometeu “não interferir em questões religiosas”, se abstendo de enviar para aprovação no Congresso ou sancionar projetos de lei que versem sobre a legalização do aborto e do casamento gay. Alegou que o Estado é laico e, portanto, eleita presidente, não vai interferir em questões religiosas. Em queda nas pesquisas, Dilma disse o que lhe era mais conveniente, ignorando o fato de que o aborto é, necessariamente, uma questão de saúde pública e, sendo assim, deve ser discutido pelo governo, da mesma forma que o casamento gay – que é uma questão de garantia dos direitos civis de uma parcela da população.

Dilma está tentando se adaptar a uma realidade que não lhe era exatamente familiar: o da superficialidade da comunicação e da incapacidade do eleitor em compreender mensagens complexas e conviver com pensamentos diversos aos seus. Nos debates da TV, não há tempo para exposição de ideias, assim como nos noticiários os argumentos são substituídos por frases de efeito e as opiniões cruas: é simplesmente sim ou não, contra ou a favor, isto ou aquilo. Não há espaço para justificativas e toda opinião que fuja ao senso comum é repelida pela maioria do eleitorado, se revertendo em rejeição ao candidato.

Por isso, Dilma simplifica o aborto a uma questão religiosa, na qual não cabe interferência do Estado. Com a mesma justificativa, diz que não vai intervir favoravelmente ao casamento gay, distorcendo os fatos de que este não se trata de um matrimônio religioso e sim de uma união civil, que para ser legalizada depende da ação do Estado, e não das igrejas.

E assim seguimos em uma reta final de campanha para presidente da República, com os candidatos se restringindo a expor posições pessoais, pior: com argumentos pobres, enquanto temas complexos, como a política econômica e as reformas tributária e política, seguem completamente à margem das discussões, para a satisfação do eleitor.

Flávio Herculano

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10 Comentário(s)

  • Levi Lopes de Carvalho | 19/10/2010 | 12:45
    Essas discursões que envolvem aborto e gay devem ser tratados quando um dos dois candidatos assumirem, pois é polêmico e precisa ser bem discutido com as igrejas para que os parlamentares e executivo tomem uma decisão. Não vai ser fácil. Só se proibirem a leitura da Bíblia. E mesmo assim ela já está no coração e na mente de muita gente que acredita nela como Eu. Se faz necessário mesmo, é discutir a curto prazo as questões de segurança, saúde e principalmente educação com resoluções práticas, pois tanto um como o outro estão devendo. as demais coisas são consequências da falta desse tripé em funcionamento.
  • Cláudio Rodrigues Vasconcelos | 19/10/2010 | 12:03
    Sabe porque o assunto sobre casamento gay e aborto tem recaido sobre a Dilma "Titanic" Flávio Herulano? É simples, é porque ela não tem vida própria, não passa de um logro, de uma invenção lulista. Ora, era só ela manter o que disse no passado e pronto, a polêmica nem teria acontecido. Agora vejo que vc ao responder ao Marcos Alexandre, não deveria ter manifetado sua opção em não votar no Serra, vc deveria pelo menos ter escondido um pouquinho sua paixão velada petista, que álias parece que é praxe desses pseudos intelectuais. Cláudio Rodrigues Vasconcelos. Colinas do Tocantins - TO
  • GISLENE FERNANDES | 19/10/2010 | 11:28
    vcs perceberam que ultimamente questoes para debate so são os seguintes tema: ABORTO, homofobia, não tem outras coisas pra debatermos não? até paresse que a Dilma só apresentou essas suas propostas ao país... cadê as outras propostas tanto dela quanto do Serra? ou todas as outras são cabiveis ao Brasil? casamento gay é problema de quem quer casar, ninguem tem que se meter nisso, e aborto é uma servergonhice, mulheres frias sem coração que pratica isso..
  • Flávio Herculano | 19/10/2010 | 10:25
    Olá Marcos Alexandre. Não pedi voto pro Serra inclusive porque não voto nele e não o citei no texto porque todo o foco sobre o assunto, na mídia, tem recaido sobre Dilma. Foi sobre isso que tentei analisar. Obrigado pela leitura.
  • Maria Amélia | 18/10/2010 | 23:31
    Perfeito o texto do Flávio, bem oportuna a releitura da atual encruzilhada eleitoral.
  • marcos alexandre de souza | 18/10/2010 | 22:26
    olha flavio, com esse texto, voce só faltou pedir voto para serra. se colocar de intelectual independente é facil o dificil é tentar se eleger num pais como nosso sem instrução, evangélico, preconceituoso e intelectuais partidários.
  • Nara Rubia | 18/10/2010 | 15:57
    quiçá, Dilma terá o mesmo destino do Titanic!
  • Francisco Sulo | 18/10/2010 | 13:19
    No plano econômico os candidatos são bem parecidos. Se FHC foi privatista, Lula foi bem mais, afirma o fundador do PT, o sociólogo Francisco Oliveira. Os investidores internacionais já apontaram que Serra, em que pesem algumas pequenas mudanças a serem levadas a cabo na economia, não representa uma ameaça ao equilíbrio econômico. No geral, se o governo petista fez algo apenas ampliou ou reproduziu algo que já era do governo tucano. Não há diferenças gritantes nesse aspecto. Daí que seja natural que a disputa migre pra outros temas da vida nacional, como é o cado da religiosidade, valores e crenças em geral. É ingenuidade de quem quer que seja admitir que aspectos relativos a crenças e valores não sejam discutidos numa decisão tão importante como uma eleição presidencial. O Estado é laico mas composto de gente religiosa, inclusive os ateus, religiosíssimos em suas posições tanto quanto contraditórios naquilo que afirmam.
  • Edna Borges | 18/10/2010 | 10:56
    Essa conversa de direitos de homossexuais ou heterossexuais existe nesse pa?s por simples atraso desse povo burro e facista. Eu não sou gay e também não sou obrigada a gostar de que é. Mas perder tempo com essas questoes é um desrespeito ao brasileiro quando se tem coisa muita mais séria para ser discutida.
  • Tlevesoor | 18/10/2010 | 10:28
    Entendo que a Sra. Dilma Rusself está sendo sensata quanto ao seu discurso. Vejam bem, a grande maioria da população brasileira é contra o aborto e o casamento gay, então porque defender esta bandeira? A minoria tem seus direitos e estes devem ser respeitados, desde que não afetem a moralidade e os bons costumes. Apesar de muitos acharem que é moral homem beijar homem em local público, fazer sexo e engravidar e tirar o feto como bem entender, sem se preocupar com as responsabilidades. O que tenho a afirmar é que hoje está muito difícil votar para Presidente, não sabemos qual dos dois é menos ruim.

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