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Segunda-feira, 27 de julho de 2009, 11h19m

Ao lado do fogão a lenha

Meu corpo e meu espírito já pediam ajuda. O cansaço bateu. Era hora de dar um tempo. Aproveitei um convite e fui passar o final de semana numa fazenda. Fazenda, fazenda mesmo. Sem forro e sem energia. O céu lá era tão claro que a lua era bastante para clarear a casa.
 
Arquivo No fogão à lenha, comida com gosto dos velhos tempos
No fogão à lenha, comida com gosto dos velhos tempos

As crianças viveram as maiores e mais incríveis experiências. Viram estrelas cadentes, acenderam fogueira e acompanharam aterrorizadas a morte e o escalpo bárbaro de um frango. Descobriram que o coração do espetinho é o mesmo que bate dentro de uma galinha.

O fogão era acesso bem de manhazinha. A lenha vinha do quintal e quando acordávamos já estava queimando e aquecendo toda a cozinha. As galinhas aguardavam o resto do nosso café da manhã. Uma fábrica de reciclagem.

O frango, tão esperado para o almoço, já havia sido estrangulado. Enquanto a água fervia para a retirada das penas, a anfitriã, em pé ao lado do fogão relembrava, de forma nostálgica, o passado (para ela, quem senta para fazer qualquer coisa é preguiçoso).

A conversa chegou até as relações humanas. O assunto chegou nas amizades. Lembrou que os “cumpadres” saiam de casa e andavam léguas para uma visita, uma prosa. Queriam saber como estava a vida do outro. A curiosidade era sadia, mais uma preocupação. As notícias chegavam muito mais rápidas do que hoje, com todos os meios de comunicação disponíveis. Sentiu a morte de um amigo há pouco tempo. Ficou sabendo um mês depois. Gostaria de ter ido velar seu corpo. Os vizinhos, naquela época, podiam morar mais distante, mas eram mais presentes.

A conversa me fez lembrar o colega Jorge Gouveia. Jornalista conhecido, funcionário de uma Secretaria Pública, um filho que morava ao lado, vizinhos...

E ninguém sentiu sua falta por dias. Jazia sozinho numa gaveta do IML. A porta da casa estava aberta e ninguém se preocupou em saber por quê...No seu velório, duas ou três pessoas rezavam pela sua alma...

A lenha continuava a queimar no fogão. A água estava pronta para sapecar o frango. O marido veio fazer o serviço. A prosa continuava.

Começamos a falar sobre religião. Um assunto proibido hoje em dia. Mas com ela tão fácil de conversar.

Contou que sua família inteira era espírita. O avó foi o fundador do primeiro Centro Espírita de Porangatu. O marido era católico. Antes do casamento ele disse: “Você vai passar a ser católica pela união da nossa família e para nossos filhos terem uma criação unida”. Foi então batizada, fez primeira eucaristia e crisma antes do casamento. Freqüenta a Igreja Católica e criou os filhos na sua unidade. “Fiz a minha parte. Agora, cada um que siga seu caminho”...Eu? Não deixei um só dia minhas convicções de lado. Apenas juntei à elas o que achei proveitoso da minha nova religião”

Até sorri imaginando o que aconteceria se meu marido falasse que eu iria mudar de religião...Com certeza ela foi mais sábia do que eu seria...

E eu refletia ao lado daquele enorme fogão...Minha família, meus amigos, minha fé, minhas convicções... Revi minha paciência, minhas renúncias, minha intransigência, meu orgulho...meus medos...

Para onde estamos caminhando? Eu, você e o mundo?

O frango demorou a cozinhar na enorme panela de ferro.

Um gosto único. Gosto de força, de coragem e de saúde. Um gosto que não sentimos mais.

Yanna Barbosa

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2 Comentário(s)

  • Goianyr Barbosa de Carvalho | 30/07/2009 | 17:07
    Esses relatos são de dar água na boca,mormente quando é retratado o lado campestre da vida que, a cada segundo, evapora-se de nós.
  • Roberta Tum | 27/07/2009 | 11:07
    Yanna, não resisti passar por aqui e deixar registrado um comentário. Você a cada dia consegue trazer melhor para a ponta dos dedos, e para o teclado, as coisas que brotam na alma e passam pela mente sem perder o sentido. Parabéns!

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