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Terça-feira, 31 de março de 2009, 06h56m

Alma de pássaro-preto

Um dia ouvi: "Sou um pardal com alma de pássaro -preto". Achei lindo! Sou um pouco assim também. Para quem não entende nada de pássaros...O pardal é um pássaro de cidade enquanto o pássaro -preto, amante dos campos.

Tudo isso para falar da maravilhosa matéria do Fantástico domingo, dia 29, sobre a merenda escolar em Cavalcante, nordeste de Goiás.

Para quem não assistiu, Marcelo Canellas mostra a árdua trajetória de crianças que atravessam o cerrado para chegar a uma escola rural. Levanta a questão da evasão escolar quando a merenda acaba. Mostra a determinação de professores e merendeiros que chegam a atravessar rios e correntezas para levar educação e alimentação a um grupo de crianças, muito, muito longe da cidade.

Enquanto assistia, me lembrava da primeira redação de vestibular que fiz, tentando uma vaga na Universidade Federal de Goiás. O tema era o êxodo rural. Era início da década de 80. Não sabíamos no que ia dar, mas não imaginávamos tantos problemas.

Já dizia nossa sábia quebradeira de coco, Dona Raimunda: “muito melhor ser pobre no mato do que miserável nas favelas”.

E é esse o ponto de vista que defendo. Muitas vezes se mostra a vida rural como uma aberração. Ora, é apenas uma opção. Viver na zona rural é delicioso. Saudável. Para as crianças pode não ter a alta tecnologia dos vídeos games, mas tem a arte de brincar nas árvores, de andar a cavalo, de correr atrás de galinhas e porcos. Lá não tem Mac Donald, mas também não tem crack.

O que não podemos aceitar é a fome no campo. E isso é responsabilidade do poder público. É hora do anti-êxodo rural. De incentivar o caminho de volta. Não é querer transformar o rural no urbano, mas oferecer aquilo que é essencial para uma vida digna. Oferecer a possibilidade de opção. A opção de sair de uma favela. De trocar o som de tiros pelo canto dos pássaros. De comer o que se planta e beber da onde a água brota.

Cabe sim ao poder público manter bem as escolas rurais . Não faz mal ser de taipa, ou coberta com folha de coco (é até mais fresco). Quem é da roça não liga prá isso não. Mas é preciso ter livros, ter bons professores, ter uma merenda saudável para completar aquela feita num fogão a lenha.

Afinal, quem tem alma de pássaro-preto não quer ser ou virar pardal. Só quer um bom lugar para viver e cantar.

 

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Comentários

  • Fabrícia Prates | 04/04/2009 | 08:04 Realmente um lindo texto! Quando lembro que já tive que percorrer mais de 30 kilometros, em uma estrada de chao, cheia de buracos, com meu irmao dirigindo e minhas irmas ao lado.... Eramos um dos poucos, ou case nenhum, que tinhamos carro naquela regiao, tinhamos que sair com bastante tempo para nao chegar tarde ao Colégio. No caminho iamos parando e levando a outros alunos que iam andando, gente humilde, de chinelo no pé, um caderno, um lápis e talvéz uma borracha na mao. Era Roraima no ano 1985, meu pai tinha sonhos de prosperar naquele lugar. O que me deixa triste, é que mesmo estando no ano 2009 as coisas ainda continuem igual que a . Espero um día, deixar essa minha vida de Pardal e voltar a viver como minha alma deseja. Um grande abraço, amiga querida!
  • caroline spricigo | 02/04/2009 | 13:04 Que palavras mais belas... quando assisti esta matéria me senti viva, triste mas viva..pois ainda há pessoas maravilhosas neste nosso mundo. Adorei ler este espaço especial
  • Adriano Fonseca | 02/04/2009 | 09:04 Eu como sempre suspeito. Sou fã dos seus textos... das suas narrativas... das suas histórias. Vamos lutar pela dignidade da roça (retorno dela, melhor dizer!) beijo grande e sucesso sempre!!!

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