Muitas pessoas contribuiram com o voto, outras com a criatividade, algumas poucas com recursos, e outras ainda com a capacidade de articulação. Muitos, mas muitos mesmo são responsáveis pelo resultado favorável das urnas no último dia 3 para Siqueira Campos.
Parecia missão impossível vencer todos os trunfos que a candidatura governista exibia: Mais de 100 prefeitos, a maioria dos vereadores, centenas de ambulâncias e convênios a distribuir, 90% dos partidos da base do presidente Lula, e finalmente a imagem dele: o todo poderoso e amado pelas massas, presidente da República.
Muitos anos vão se passar, mas ao olhar para trás daqui há algum tempo não haverá um historiador ou analista político que poderá ignorar o fator Kátia Abreu nesta campanha. Vamos aos fatos.
A reação ao desmonte do DEM
Quando o governador Carlos Henrique Amorim assumiu o governo interino, para buscar sua eleição para o mandato tampão pós Rced de Marcelo Miranda, encontrou pela frente a resistência de Kátia Abreu. Para dar volta nos partidos, criou uma lei que dispensava a participação deles e isolou os líderes no processo, negociando diretamente com os donos dos votos: os deputados. A lei teve que ser refeita pois era inconstitucional, mas desafiando outra lei, a de fidelidade partidária, o governador provocou a desfiliação dos deputados do DEM, e esvaziou o partido da senadora. Um único voto lhe sobrou: o de Toinho Andrade, que entrou para a história como a voz da discordância.
Ao verdadeiro arrastão que se seguiu com a desarticulação da bancada do DEM, veio outro: a caça aos suplentes para que em caso de cassação dos mandatos dos titulares não sobrasse ninguém para assumir. Mas não foi preciso. O TRE entrou para a história ao garantir o mandato dos deputados que desertaram para apoiar, sem seus partidos, o candidato a governador.
Segundo ato: o gesto de aproximação com Siqueira
Paralela à luta que empreendeu na justiça e ainda mantém, para recuperar os mandatos dos deputados estaduais, Kátia Abreu leu o cenário político e tomou a decisão de se aproximar do ex-governador Siqueira Campos. Entre o dia da primeira conversa no apartamento dele em Brasília, para onde foi levada por um motorista ilustre (o deputado federal Vicentinho), o almoço de reaproximação oferecido a ele e sua família na casa dela em Palmas, e o evento de formalização do apoio, muitas águas rolaram.
O fato é que ao se aproximar de Siqueira naquele momento, e acenar com a construção de uma aliança, Kátia fortaleceu a candidatura do ex-governador e garantiu a vaga de vice numa futura chapa. Sentindo-se traído pelo grupo governista e especialmente pelo PMDB, o senador João Ribeiro foi o próximo a se juntar ao ex-governador, abrindo mão também de uma postulação ao governo. Estava formada a tríplice aliança.
Coragem para enfrentar, denunciar, combater
Sem disputar mandato nesta eleição, Kátia Abreu tinha uma meta diante da nacional do seu partido: recompor a bancada de dois deputados federais do Democratas, desfalcada com a saída da deputada Nilmar Ruiz para filiar-se ao PR (naquela jogada que lhe garantiu a Unitins, a Rede Sat e outras regalias).
À vontade para assumir o papel que fosse necessário sem medo de desgaste a senadora democrata foi uma verdadeira leoa em campo de combate: não deu trégua, nem foi condescendente com o adversário. Das denúncias que fez sem provas (ato que lhe rendeu muitas críticas), boa parte se comprovou nos relatórios do Tribunal de Contas do Estado. Obras medidas a mais e pagas sem serem realizadas começaram a surgir, pontes de papel reveladas em auditorias técnicas, tentativa de aliciamento de prefeitos em troca de vantagens pessoais (no polêmico e controverso caso do prefeito de Fortaleza do Tabocão).
Denunciando,provocando as autoridades, movimentando a imprensa local e nacional, Kátia Abreu foi incansável em apontar as mazelas do governo do PMDB que ajudou a eleger em 2006, mas com o qual foi rompendo paulatinamente (mesmo antes do Rced, é bom lembrar).
No saldo das urnas, tem muito dela
Criticada pela escolha do vice, bombardeada pelo lançamento do filho Irajá que substituiu Júnior Marzola e evitou outra tentativa de esvaziamento do DEM, Kátia terminou a campanha melhor do que quando entrou nela. No saldo das urnas elegeu o vice, dois federais e dois estaduais.
Sua contribuição à frente da coordenação operacional da campanha somou organização, disciplina, sem falar nas portas abertas junto a investidores nacionais. Mas de todos os episódios que repousam nos bastidores há um que merece ser contado: a briga com o Ibope.
Por motivos que não estão claros e nem vale a pena adentrar, as pesquisas que o instituto vinha fazendo no Tocantins não batiam com as pesquisas de consumo interno realizadas pela Vox Populi, entre outros institutos usados pelo staff de Siqueira.
Conhecida nacionalmente, e conhecedora do funcionamento das coisas Kátia Abreu revoltou-se com os resultados e literalmente "foi pra cima" da direção do Ibope. Cobrou "responsabilidade", com os resultados divulgados. Ameaçou iniciar movimento no Senado para regulamentar as pesquisas. Para acalmá-la foram acionados os tucanos de Minas, com quem tem bom relacionamento.
O resultado foi que Estadão e Veja na rua com a publicação de trechos absolutamente autênticos do relatório do Ministério Público Estadual de São Paulo, os índices do governador despencaram e o Ibope registrou a queda. Dizer que eram dados adulterados, de um documento roubado não adiantou. Afinal, cinco dias antes do roubo o Estadão já tinha cópia do relatório.
Se é verdade que a sorte favorece os que muito trabalham, o universo conspirou em favor da sofrida vitória de Siqueira, na qual ele sem dúvida, tem os principais méritos. O que hoje, um ano depois do movimento anti Kátia nem companheiros, nem adversários podem negar é que ao lado do governador eleito ela se sagrou também uma vencedora.
A história desta campanha jamais seria a mesma sem ela.
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